amar . elo

[do dia chamado hoje o que eu quero é o agora]

just a reflektor

No topo do corpo, um turbilhão.

Caos organizado, toma a-tenção.

Puro instinto, controle extinto.

Anacrônico, veloz, furioso.

Receoso: ansioso, sim.

Dos medos e da coragem, não,

mas dono de si.

Que vem e que vai,

De mim ou para mim,

mas nunca cai.

"Patrick Gough, planejador de transporte urbano de San Francisco, disse em uma reportagem para o NYT que se sentia mal por quem vive em Brasília, porque estamos isolados uns dos outros.

Patrick, não precisei passar da segunda linha para entender que você não saiu do circuito Setor Hoteleiro/Eixo Monumental antes de escrever. Das cidades satélites você não sentiu nem o cheiro. Mas já que estamos falando de Brasília e não de DF, é de Brasília que vou falar.

Não se sinta mal por eu viver em Brasília, não mesmo. Talvez você tenha razão em se espantar com o nosso péssimo transporte público e a nossa necessidade de andar de carro. Mas não estamos isolados.

Eu moro em uma cidade que, pela dificuldade de locomoção, me estimulou a, desde pequena, conviver tão intensamente com meus amigos a ponto de fazer parte da família. Eram finais de semana e até férias de revezamento entre as casas, chamando os pais de tio e tia, convivendo com primos, irmãos e amigos e isso me fez adotar uma série de “irmãos” que podem não ser de sangue, mas são de coração.

Eu moro em uma cidade que não tem mar, mas tem um orgulho imenso do lago artificial. Fazemos questão de pegar as cangas, pranchas, caiaques, pedalinhos e lotar aquelas águas todo final de semana.

Eu moro em uma cidade que tem muito, muito samba. Mas também tem forró pra caramba. Tem frevo, tem maracatu, tem sertanejo, axé, funk, rock, pop, jazz. Ah! Também tem orquestra de graça, escola de música reconhecida mundialmente, clube do choro. Tem um montão de gente boa demais, batalhando para construir uma cultura musical forte na cidade. E graças a essa diversidade, eu nunca precisei fazer muito esforço para conhecer os mais diversos ritmos brasileiros.

Eu moro em uma cidade que não é ofensa ser cearense, como é no Rio, ou “paraíba”, como é em São paulo. É motivo de orgulho. Os sotaques se misturam aqui, a ponto de não termos sotaques, ou termos todos juntos. A ponto de eu poder falar “oxi”, “uai” e “véi” na mesma frase, e ninguém achar estranho. A ponto de ser perfeitamente normal eu ser filha de uma mineira do interior com um amapaense, morrer de orgulho por isso e ser simplesmente “a cara de Brasília”.

Eu moro em uma cidade que me permite ter melhores amigos roqueiros, axezeiros, forrozeiros, católicos, evangélicos, homossexuais, heteros, e eles convivem bem, frequentam os mesmos lugares vez ou outra e têm a cabeça muito mais aberta para a diversidade.

Eu moro em uma cidade que tem um metrô horrível e eu nem sei pegar ônibus. Mas tem um monte de gente tentando mudar isso: gente que ajuda a gente a saber qual ônibus pegar, gente que defende a bicicleta como meio de transporte (afinal a cidade é fantástica para isso). Tem também quilômetros de ciclovia que podem não ter sido construídos da melhor forma possível para transformá-las em um meio de transporte viável (ainda), mas estão lotadas ao menos nos finais de semana.

Eu moro em uma cidade que todo mundo anda dentro de suas caixinhas conhecidas como carros, mas lotamos o maior parque urbano do mundo, todo santo final de semana. Lotamos os clubes também. Lotamos a orla. E tem Picnik, tem Deguste, tem Quitutes, samba na superquadra, shows na rua, todos lotados. Tem CCBB. Tem Parque Olhos D’água. Tem Água Mineral, tem Zoológico. Fora as piscinas dos amigos, nas casas ou nos prédios. E estão sempre cheios. Isso é isolamento?

Eu moro em uma cidade que tem céu azul, tem grama verde na chuva e chão vermelho na seca, que tem ipê roxo, branco, amarelo. Que tem flores coloridas. Tem monumentos brancos. Tem obra de arte do Athos Bulcão na rua, tem obra de arte do Niemeyer no centro, tem obra de arte da natureza em todo canto e no entorno da cidade. E a gente não se cansa de sair na rua só pra fotografar, ou quase cair do skate para registrar um ipê florescendo.

Eu moro em uma cidade que me permite chegar em uma cachoeira deslumbrante em meia hora. Ou passar o final de semana em uma cidadezinha de interior bem charmosa. Ou sentir o clima de “uma cidade de verdade” a 20 minutos ao sul ou ao norte, é só ir para Taguatinga, Sobradinho ou outras cidades satélites.

Eu moro em uma cidade que não tem segurança, educação, nem saúde pública. Ainda assim, e apesar de todos os péssimos governadores que tivemos, é melhor do que a maioria das cidades do país.

Eu moro em uma cidade que me permite almoçar em casa se eu quiser, ou com os amigos em pleno meio da semana. Que me permite sair do trabalho e fazer aula de dança, lanchar e ainda pegar um cinema. Que me permite ter quatro eventos sociais em um dia e conseguir ir a todos eles.

Eu moro em uma cidade que vem lutando para construir um identidade, afinal somos muito jovens ainda. Que tem uma geração ávida por cultura, lazer e diversão. Que tem gente muito boa fazendo arte e gente lutando para que a arte seja valorizada.

Eu moro em uma cidade onde eu posso comer açaí, tacacá, maniçoba, tapioca, churrasco, baião de dois, pamonha, carne de sol, feijoada, pastel, e comida de qualquer lugar do país como se eu tivesse em suas regiões de origem. Além disso, conto nos dedos alguma outra que tenha um número tão grande de restaurantes e cafés com tanta qualidade. Aqui eu posso comer comida indiana, tailandesa, natural, italiana, japonesa, contemporânea, francesa e várias outras sem sentir falta dos restaurantes de grandes metrópoles.

Eu moro em uma cidade sem esquinas sim, mas sem cerveja nunca. Porque cada superquadra tem ao menos um bar ou um boteco que estão sempre cheios. Tem também muita caipirinha, caipisakê, caipiroska, vinho, espumante.

Eu moro em uma cidade que não tem futebol, também não tem nenhuma tradição no esporte, nem incentivo, nem investimento. Mas tem basquete, tem natação, tem corrida. tem uma população que faz questão de praticar atividade física e não frequenta só academia. Frequenta o lago (olha ele de novo), frequenta as ruas com suas bicicletas, o eixão aos domingos, o parque da cidade.

Então não me venha dizer que se sente mal por mim, porque eu amo essa cidade com todos os problemas que ela apresenta (e não são poucos), mas sobretudo por todas as suas qualidades. E eu tenho um orgulho imenso da minha geração que se esforça a cada dia paradesburocratizar essa cidade e fazer dela um lugar cada vez mais irresistível.”

Por: Carol Soares